Turismo religioso no Brasil: quando os dados não acompanham a realidade dos destinos
Com base em números recentes de grandes romarias em 2025, análise aponta que o potencial do segmento no Brasil é significativamente maior do que os dados oficialmente difundidos
14.05.2026 - 10:30:00 | 6 minutos de leitura

Ao tratar do turismo religioso no Brasil, é
importante, antes de qualquer análise, reconhecer o que estabelece o próprio
Ministério do Turismo em seu marco conceitual: romarias, peregrinações e festas
religiosas — especialmente as festas de padroeiros — fazem parte estruturante
desse segmento.
No entanto, ao mesmo tempo em que se respeita esse
entendimento institucional, surge uma preocupação crescente: os dados oficiais
amplamente divulgados não acompanham a realidade atual dos destinos.
A presente análise parte de uma nova pesquisa
técnica realizada pelo turismólogo e especialista em Turismo Religioso Sidnesio
Moura, reconhecido como uma das principais referências do segmento no Brasil. É
autor de diversos artigos e matérias publicados em veículos de alcance
nacional, como a Revista Qual Viagem, Diário do Turismo, além de atuar como
colunista de turismo no Diário do RN e no portal Turismo em Alagoas. Além de
ter algumas publicações como Turismo de Experiência e Fé no Vatican News
Sidnesio Moura também é CEO do Fórum Nacional de
Turismo Religioso, considerado o único evento técnico, científico e de
articulação institucional do Brasil dedicado exclusivamente ao turismo
religioso. O Fórum reúne lideranças públicas, privadas, acadêmicas e religiosas
de todo o país, consolidando-se como um espaço estratégico para o
fortalecimento da governança, da inovação e do desenvolvimento sustentável do
segmento no Brasil.
Um erro que vem desde 2015
Em 2015 o Ministério do Turismo registrava um
número de 17,7 milhões de pessoas no Turismo Religioso, com dados levantados a
partir de 344 destinos e 96 atrações.
Já naquele período, uma análise realizada pelo
jornalista Amadeu Castanho, em conjunto com o turismólogo e especialista em
turismo religioso Sidnesio Moura, apontava uma distorção relevante.
Apenas alguns dos principais destinos religiosos do
país já ultrapassavam, isoladamente, os dados nacionais divulgados:
- A
Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida, atingia
cerca de 12,1 milhões de visitantes em 2015
- O
Círio de Nazaré, em Belém, reunia aproximadamente 2,4 milhões de
pessoas
- As
romarias ligadas a Padre Cícero, em Juazeiro do Norte (CE), movimentavam
cerca de 2,5 milhões de fiéis
- O
Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento (SC), registrava
aproximadamente 840 mil visitantes
- O
Santuário do Bom Jesus da Lapa, na Bahia, alcançava cerca de 1,5 milhão
de pessoas
Somados, esses cinco destinos já totalizavam cerca
de 18,5 milhões de visitantes.
Ou seja: apenas cinco polos religiosos praticamente
igualavam — e em alguns cenários superavam — os dados nacionais apresentados à
época.
E mais: caso fossem incluídas a Romaria do Divino
Pai Eterno e a visita anual à Basílica, que já reunia cerca de 4 milhões de
pessoas em 2015, os números ultrapassariam com folga qualquer estimativa
oficial daquele período.
Festa de Nossa Senhora da Penha - Vila Velha/ES - Foto: Márcio Auriema
O cenário se repete em 2025
Passados quase dez anos, a
realidade não apenas se manteve — ela se ampliou.
Uma análise baseada em dados divulgados em 2025 por
fontes institucionais e veículos de comunicação revela um cenário que merece
atenção e que o mesmo padrão se repete.
Apenas quatro grandes manifestações religiosas no
Brasil já somam números expressivos:
- A
Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida, registrou
aproximadamente 10,5 milhões de visitantes em 2025, conforme dados
divulgados pelo próprio santuário.
- O
Círio de Nazaré, realizado em Belém, reuniu cerca de 2,6 milhões de
pessoas em 2025, segundo informações do G1.
- A
Festa da Penha, em Vila Velha, alcançou cerca de 2,7 milhões de
peregrinos em 2025, conforme dados do site oficial do evento.
- A
Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, registrou aproximadamente 4,3
milhões de participantes em 2025, segundo dados informados pela
Prefeitura Municipal de Trindade/GO e pela Polícia Militar.
Somados, esses quatro destinos atingem
aproximadamente 20,1 milhões de pessoas apenas em 2025.
Ou seja: apenas quatro eventos, em um único ano,
já superam os dados nacionais consolidados divulgados há quase uma década.
A força das romarias: experiência e impacto
A vivência dessas manifestações reforça o que os
números já indicam. A Festa da Penha, por exemplo, demonstra uma força impressionante
de mobilização.
A tradicional Romaria dos Homens, realizada dentro
da programação de 2025, mais uma vez superou expectativas, reunindo milhares de
fiéis em um dos momentos mais marcantes da festa. A caminhada, carregada de fé
e devoção, revela não apenas a dimensão espiritual do evento, mas também seu
impacto social, cultural e econômico.
Uma leitura necessária: o turismo religioso
está subdimensionado
Diante desse histórico — tanto em 2015 quanto em
2025 — a constatação se fortalece: o turismo religioso no Brasil vem sendo
subdimensionado há anos.
Diante desses dados, torna-se inevitável uma
constatação:
E não se trata de projeções, mas de números reais,
provenientes de santuários e instituições religiosas, poder público local, veículos
de comunicação de alcance nacional e plataformas oficiais dos eventos. Ou seja,
são dados consolidados na prática dos territórios.
E os outros destinos?
Se apenas quatro destinos já ultrapassam os números
nacionais, a dimensão real do turismo religioso brasileiro se amplia ainda mais
quando observamos outros polos consolidados, como Juazeiro do Norte (CE), Canindé
(CE), Nova Trento (SC), entre tantos outros destinos espalhados pelo país, que
recebem fluxos contínuos de peregrinos ao longo do ano e contribuem
significativamente para a economia local.
Um chamado à atualização e ao planejamento
Diante desse cenário, torna-se fundamental que o
Ministério do Turismo avance na atualização de seus dados e metodologias,
acompanhando a realidade atual dos fluxos turísticos religiosos. Com dados mais
consistentes, será possível, planejar melhor os destinos, direcionar
investimentos, fortalecer a governança turística, qualificar a experiência dos
visitantes e ampliar o impacto econômico do setor
Conclusão: mais do que números, uma realidade
consolidada
O turismo religioso no Brasil não pode mais ser
interpretado com base em dados defasados.
Os números de 2015 já demonstravam
inconsistências. Os dados de 2025 apenas confirmam essa realidade.
O que se observa é um segmento robusto,
crescente e com forte capacidade de mobilização.
Diante disso, os números oficiais representam
apenas uma fração do potencial existente — a ponta do iceberg.
Reconhecer essa dimensão é essencial para que o
Brasil avance no planejamento, investimento e valorização de um dos segmentos
mais fortes do seu turismo.
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